Literatura de Cordel






Ela estava novamente sentada no banco do lado direito do ônibus. Todos os dias ela fazia a mesma coisa. Entrava, passava seu cartão de passagens, escolhia a poltrona mais no fundo do veículo, abria a bolsa e discorria toda a sua atenção para um livro. Vez ou outra ela espiava quem caminhava na rua, mas em seguida, lia mais uma página.

                Foi assim desde o primeiro dia, parecia uma mulher simpática, confortável em sua posição naquele ônibus cheio, e segura de sua capacidade intelectual. Uma semana era algo mais sério, como o livro de Thomas de Wesselow, “O Sinal”, na outra era algo mais pervertido como “Cinquenta tons de cinza”. Sempre era algo inovador para ela.

                Uma mulher misteriosa, foi assim que denominei ela. Pois para mim, um mero desconhecido, ela não passava disso. Cheia de ideias, volúpias, segredos e um algo a mais reservado a literatura, a mulher misteriosa lia em média dois livros por semana. As capas era diferentes, coloridas, lisas, abstratas, mas sempre interessantes. Alguém pode me perguntar, “Mas por quê interessantes?”, eu responderia com convicção que para mim, uma mulher que lê, não apenas livros banais como romances baratos, é uma mulher que sabe escolher uma companhia. Não falo de mim, pois não tenho tanta pretensão assim. Eu, um mero leitor de gibis, no mais um almanaque ou uma revista esportiva. Não, ela nunca iria interessar-se por alguém que não compartilhasse de seus gostos por literatura.

                E assim passou-se mais uma semana de leitura. Já se completaram três meses e ainda não tive coragem de dizer um olá a mulher misteriosa. Tive medo até de dizer olá de uma forma errada. Vai saber se ela não tem a mania de corrigir o vocabulário dos outros. Mulheres misteriosas e amantes da leitura são assim. Pelo menos é o que eu imagino. Por isso, resolvi me abastecer de um pouco de literatura para pode, enfim, iniciar com um “bom dia” a mulher misteriosa. Fui à biblioteca municipal e comecei a minha procura por inteligência. No início a minha busca foi infundada, pois meu cérebro e minhas mãos optaram por leituras práticas e fáceis como o livro relatando a história do Grêmio, meu time do coração. Mas percebei na hora que não seria algo interessante, para iniciar uma conversa com uma mulher inteligente a amante da literatura conversar sobre futebol. Então escolhi o livro “Toda sua”, de Sylvia Day. Algo parecido com “Cinquenta tons de cinza”. Uma ótima opção.

                No dia seguinte, entrei no ônibus e ela não estava. Pensei em várias coisas, que ela devia estar em uma outra parada de ônibus, ou iria ir mais tarde para o trabalho. Só sei que guardei meu livro na mochila. Dessa forma eu teria mais um dia para ler umas frases a mais daquela edição literária. Porque para puxar assunto sobre algo você deve conhecer o assunto de forma profunda. Assim sendo, iniciei a minha leitura quando cheguei em casa no final da tarde.

                Não achei muito interessante saber sobre as peripécias e aventuras sexuais de um homem e uma mulher, profundamente abalos. Mas fiz o que pude, ou seja, tentei ler. Os capítulos foram passando e eu ainda me via na mesma história, mas agora no papel principal. Eu, um milionário, com uma amante psicologicamente abalada, fazendo coisas ensandecidas. No final do dia eu já tinha terminado a leitura, e me parabenizei por isso. Então estava pronto para o dia seguinte.

                Quando entrei no ônibus ela estava lá, no mesmo banco, sentada com um livro sobre as pernas. Bela como sempre, a mulher misteriosa parecia ter saído dos filmes ingleses, com sua pele clara e serenidade. Havia um lugar vago a seu lado, então resolvi me sentar. Dei um oi tímido, ela também. Percebi a leitura daquela semana, “O Príncipe da Névoa”, de Carlos Ruiz Zafon. Ótima escolha, disse. Ela sorriu.

                O diálogo não passou disso, ou melhor, o monólogo, então resolvi me abastecer um pouco mais de leitura. Escolhi algo parecido e atual, como o livro dela. Optei por “As aventuras de Pi”, de Yann Martel. Bom, muito bom. Uma narrativa singular, com seus percalços e esquesitices. Gostei tanto da minha escolha que me aventurei por alguns singulares, como “O Hobbit”, de Tolkien. No dia seguinte ela não estava no ônibus, nem nos próximos meses seguintes. Nunca mais vi aquela mulher misteriosa, nunca mais apreciei de sua companhia, mas de uma coisa eu sei, nunca mais larguei os livros. Decidi isso quando já havia lido cerca de 10 livros e um mês. Foram tantos, “Morte súbita”, de Rowling, “O lado bom da vida”, de Matthew Quick. Li até “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson.

                Nunca mais parei de ler, e assim, entendi a ficção por literatura. Mulheres que leem livros diversos, para mim, tornou-se uma paixão. Tantas depois da mulher misteriosa, mas cheias de charme e recato. Eu sempre ia lendo no ônibus, e assim, percebia que não sentia falta de outras pessoas conversando fiado ao meu lado, pois eu entrava na história, era essa a verdade. Nunca mais parei de ler, e hoje me tornei um especialista em obras. Não falo isso como um especialista, como muitos afirmam, mas como um amante de bons livros.

CONVERSATION

0 comentários:

Postar um comentário

- Comente, mas algo que acrescente uma opinião, sempre com respeito.

- Siga o blog, mas deixe seu endereço para eu seguir de volta.

- Dicas, opiniões, sempre serão bem vindas.

E-mail para contato: dhfy.blogs@gmail.com

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Literatura de Cordel

Compartilhar




Ela estava novamente sentada no banco do lado direito do ônibus. Todos os dias ela fazia a mesma coisa. Entrava, passava seu cartão de passagens, escolhia a poltrona mais no fundo do veículo, abria a bolsa e discorria toda a sua atenção para um livro. Vez ou outra ela espiava quem caminhava na rua, mas em seguida, lia mais uma página.

                Foi assim desde o primeiro dia, parecia uma mulher simpática, confortável em sua posição naquele ônibus cheio, e segura de sua capacidade intelectual. Uma semana era algo mais sério, como o livro de Thomas de Wesselow, “O Sinal”, na outra era algo mais pervertido como “Cinquenta tons de cinza”. Sempre era algo inovador para ela.

                Uma mulher misteriosa, foi assim que denominei ela. Pois para mim, um mero desconhecido, ela não passava disso. Cheia de ideias, volúpias, segredos e um algo a mais reservado a literatura, a mulher misteriosa lia em média dois livros por semana. As capas era diferentes, coloridas, lisas, abstratas, mas sempre interessantes. Alguém pode me perguntar, “Mas por quê interessantes?”, eu responderia com convicção que para mim, uma mulher que lê, não apenas livros banais como romances baratos, é uma mulher que sabe escolher uma companhia. Não falo de mim, pois não tenho tanta pretensão assim. Eu, um mero leitor de gibis, no mais um almanaque ou uma revista esportiva. Não, ela nunca iria interessar-se por alguém que não compartilhasse de seus gostos por literatura.

                E assim passou-se mais uma semana de leitura. Já se completaram três meses e ainda não tive coragem de dizer um olá a mulher misteriosa. Tive medo até de dizer olá de uma forma errada. Vai saber se ela não tem a mania de corrigir o vocabulário dos outros. Mulheres misteriosas e amantes da leitura são assim. Pelo menos é o que eu imagino. Por isso, resolvi me abastecer de um pouco de literatura para pode, enfim, iniciar com um “bom dia” a mulher misteriosa. Fui à biblioteca municipal e comecei a minha procura por inteligência. No início a minha busca foi infundada, pois meu cérebro e minhas mãos optaram por leituras práticas e fáceis como o livro relatando a história do Grêmio, meu time do coração. Mas percebei na hora que não seria algo interessante, para iniciar uma conversa com uma mulher inteligente a amante da literatura conversar sobre futebol. Então escolhi o livro “Toda sua”, de Sylvia Day. Algo parecido com “Cinquenta tons de cinza”. Uma ótima opção.

                No dia seguinte, entrei no ônibus e ela não estava. Pensei em várias coisas, que ela devia estar em uma outra parada de ônibus, ou iria ir mais tarde para o trabalho. Só sei que guardei meu livro na mochila. Dessa forma eu teria mais um dia para ler umas frases a mais daquela edição literária. Porque para puxar assunto sobre algo você deve conhecer o assunto de forma profunda. Assim sendo, iniciei a minha leitura quando cheguei em casa no final da tarde.

                Não achei muito interessante saber sobre as peripécias e aventuras sexuais de um homem e uma mulher, profundamente abalos. Mas fiz o que pude, ou seja, tentei ler. Os capítulos foram passando e eu ainda me via na mesma história, mas agora no papel principal. Eu, um milionário, com uma amante psicologicamente abalada, fazendo coisas ensandecidas. No final do dia eu já tinha terminado a leitura, e me parabenizei por isso. Então estava pronto para o dia seguinte.

                Quando entrei no ônibus ela estava lá, no mesmo banco, sentada com um livro sobre as pernas. Bela como sempre, a mulher misteriosa parecia ter saído dos filmes ingleses, com sua pele clara e serenidade. Havia um lugar vago a seu lado, então resolvi me sentar. Dei um oi tímido, ela também. Percebi a leitura daquela semana, “O Príncipe da Névoa”, de Carlos Ruiz Zafon. Ótima escolha, disse. Ela sorriu.

                O diálogo não passou disso, ou melhor, o monólogo, então resolvi me abastecer um pouco mais de leitura. Escolhi algo parecido e atual, como o livro dela. Optei por “As aventuras de Pi”, de Yann Martel. Bom, muito bom. Uma narrativa singular, com seus percalços e esquesitices. Gostei tanto da minha escolha que me aventurei por alguns singulares, como “O Hobbit”, de Tolkien. No dia seguinte ela não estava no ônibus, nem nos próximos meses seguintes. Nunca mais vi aquela mulher misteriosa, nunca mais apreciei de sua companhia, mas de uma coisa eu sei, nunca mais larguei os livros. Decidi isso quando já havia lido cerca de 10 livros e um mês. Foram tantos, “Morte súbita”, de Rowling, “O lado bom da vida”, de Matthew Quick. Li até “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson.

                Nunca mais parei de ler, e assim, entendi a ficção por literatura. Mulheres que leem livros diversos, para mim, tornou-se uma paixão. Tantas depois da mulher misteriosa, mas cheias de charme e recato. Eu sempre ia lendo no ônibus, e assim, percebia que não sentia falta de outras pessoas conversando fiado ao meu lado, pois eu entrava na história, era essa a verdade. Nunca mais parei de ler, e hoje me tornei um especialista em obras. Não falo isso como um especialista, como muitos afirmam, mas como um amante de bons livros.

0 comentários:

Postar um comentário

- Comente, mas algo que acrescente uma opinião, sempre com respeito.

- Siga o blog, mas deixe seu endereço para eu seguir de volta.

- Dicas, opiniões, sempre serão bem vindas.

E-mail para contato: dhfy.blogs@gmail.com